Uma reflexão a partir do que os alunos da Escola Estadual José de Caldas Brito nos ensinaram nas últimas semanas. Antes de acusar, observe. Antes de opinar, analise. Antes de agir, pense criticamente.


O que eu aprendi com os alunos do José de Caldas

Nestes últimos dias, muita gente se calou. Mas os alunos da Escola Estadual José de Caldas Brito falaram. E falaram alto.

Foram eles — crianças e adolescentes — que ensinaram a mim, a você e a muitos jornalistas uma lição que parece ter sido esquecida por quem deveria saber:

Antes de acusar, observe. Antes de opinar, analise. Antes de agir, pense criticamente sobre os fatos.

Eu também sou aluno. Ainda estou aprendendo, todos os dias. E é por isso que escrevo este texto sem afirmar nada que eu não possa sustentar. O que eu tenho são perguntas honestas. E acredito que, neste momento, perguntar é o ato mais importante que um cidadão pode praticar.


A lição que veio da sala de aula

Os alunos do José de Caldas aprenderam a observar, analisar e pensar criticamente com a diretora Laísa Cominotti Rossim Prado e com uma equipe de professores admirável.

Pensar criticamente é o oposto de repetir. É olhar para os fatos, conferir as fontes, ouvir os diferentes lados e só então tirar uma conclusão — e só depois disso, agir.

E quando eu — aluno como eles — observo o que está aparecendo nesta história, analiso com calma e tento pensar criticamente, algo não se sustenta.

Talvez você, ao ler com atenção, sinta a mesma coisa.


As perguntas que a observação levanta

Eu não sou jornalista profissional. Não sou investigador. Sou um cidadão observando os fatos públicos. E observando, surgem cinco perguntas que eu não consigo mais ignorar.

1. Por que a diretora foi proibida de se defender?

O governador Ricardo Ferraço se manifestou favorável à exoneração da diretora antes mesmo de ela ter o direito de apresentar sua versão.

Em qualquer democracia minimamente saudável, isso seria suficiente para acender o sinal vermelho.

Em que país a verdade é decidida sem ouvir o acusado?

2. A reportagem que iniciou tudo foi mesmo apurada?

A acusação que estopinou o caso veio do canal “Eu Vi em Linhares”. Eu pergunto, sem afirmar — porque ainda estou tentando entender:

  • O autor foi até a escola?
  • Ouviu professores, pais, alunos?
  • Conferiu quem instalou as câmeras — e em que ano?
  • Ou apenas reproduziu o que uma única pessoa lhe disse, sem o trabalho mínimo de apuração?

Pelo que se vê publicamente, não houve apuração. Houve manchete. E a manchete viralizou — o que é diferente de ser verdade.

3. Por que só a diretora vira alvo — e a SRE, nunca?

As câmeras foram instaladas pela própria SRE de Linhares, em 2019, quando Laísa nem sequer estava na direção da escola.

Mesmo assim, o canal “Eu Vi em Linhares” insiste em acusar a diretora — e não cita o órgão público responsável.

Por que o foco é uma jovem mulher de carreira limpa, e não a estrutura pública que de fato instalou os equipamentos?

A pergunta se responde sozinha — ou, no mínimo, abre uma porta que merece ser olhada.

4. Por que, logo depois, calaram os professores?

Segundo relatos de alunos, o superintendente da SRE de Linhares, André Felipe Costa, subordinado ao governador, orientou os professores da escola a não falarem publicamente sobre o caso da diretora.

Eu pergunto, sem afirmar:

Quem está com a verdade do lado teme tanto quem fala?

Quando o silêncio é imposto, ele costuma esconder algo que, dito em voz alta, não se sustentaria.

5. Por que veículos sérios mudaram a rota — e um insiste?

A TV Gazeta cobriu o protesto dos alunos. Outros veículos passaram a ouvir a comunidade. Deputados começaram a cobrar explicações. Pais e professores se mobilizaram.

E o canal “Eu Vi em Linhares”? Continua, segundo se observa publicamente, martelando a mesma narrativa — sem novos elementos, sem ouvir o outro lado, sem responsabilizar a SRE, a SEDU/ES ou o governador.

Quando todos revisam os fatos e só uma voz insiste na mesma versão, a pergunta inevitável é: por quê?

Os fatos, lado a lado

Eu observei, analisei e juntei os pontos. Você, ao ler isto, observe também:

  • Uma diretora silenciada pelo governador.
  • Uma reportagem sem apuração aparente acusando injustamente ela.
  • Um superintendente calando os professores.
  • Um foco insistente na diretora — e nenhuma palavra sobre a SRE, que instalou as câmeras.
  • Outras emissoras corrigindo o curso dos fatos. Uma só, não.

Eu não estou afirmando que existe coordenação entre o canal “Eu Vi em Linhares”, o superintendente André Felipe Costa e o governador Ricardo Ferraço. Eu não tenho provas.

Mas eu tenho perguntas. E perguntas, quando ninguém quer ouvir, viram silêncio. E silêncio, num caso como este, costuma ser cumplicidade.

Para os alunos que aprenderam a pensar

Vocês são, hoje, os melhores investigadores desta história. Vocês conhecem a escola por dentro. Vocês sabem o que a diretora fez. Vocês sabem o que os professores ensinam.

Continuem fazendo perguntas. Em sala. Em casa. Nas redes. Nas ruas.

A pergunta certa, repetida com firmeza, derruba qualquer narrativa plantada.


Para os adultos que ainda não decidiram

Você não precisa fechar com ninguém. Só precisa não fechar os olhos.

Olhe o conjunto:

  • De um lado: uma educadora com resultados comprovados, uma escola entre as melhores do Espírito Santo, e uma comunidade inteira na rua a defendendo.
  • Do outro lado: uma acusação solta, um governo apressado, um superintendente impondo silêncio e um canal repetindo a mesma tese, sem novos elementos.
De que lado parece estar a verdade?

O que eu peço

Eu peço apenas três coisas — e nenhuma delas exige que você acredite em mim. Exige só que você acredite em perguntas honestas:

  1. Procure os fatos. Veja a cobertura da TV Gazeta. Leia os depoimentos dos alunos. Pergunte na própria escola.
  2. Cobre transparência da SRE de Linhares, da SEDU/ES e do gabinete do governador Ricardo Ferraço.
  3. Assine a petição pelo retorno da diretora Laísa em reintegraeducacao.org/#assine.

Os meninos e meninas do José de Caldas aprenderam a observar com a diretora Laísa.

Aprenderam a analisar e pensar criticamente com aqueles professores hoje silenciados.

E aprenderam que só depois de pensar é que se age — e que agir, às vezes, é defender quem foi injustiçado.

Talvez seja a hora de a gente aprender com eles.